quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O PASSADO, O PRESENTE, O FUTURO

PONTO PRÉVIO

Portugal atingiu no final de 2010 um estado calamitoso. O estado português estava na falência, sem dinheiro para fazer face aos seus compromissos, entre os quais, pagamentos de salários a todos os funcionários públicos. O governo de então endividava-se desesperadamente e continuava a gastar de forma desmesurada. Não havia rigor fiscal e, Portugal, no seu todo, estava desajustado na sua relação entre consumo e investimento face à produtividade que conseguia. Em suma, gastava-se mais (e mal) do que aquilo que se tinha.

O FACTO

Com o processo eleitoral desencadeado (fruto do não acordo do PEC IV) houve necessidade de recorrer a ajuda externa para injecção de capital nos cofres do estado português.
Surge a chamada Troika e a sua intervenção em Portugal. De uma forma simplista, esta terceira ajuda do Fundo Monetário Internacional ao estado português, resume-se a um empréstimo de milhões, em várias tranches, segundo regras específicas, que foram acordadas entre os principais partidos portugueses (PSD, PS e CDS-PP). Foi um compromisso de estado, em nome de Portugal, onde se aceitou ajuda financeira em troca de cumprir determinados objectivos (as tais regras) económicos, financeiros, sociais, administrativos. Foi um compromisso para reformar o estado português, o seu funcionamento e a sua relação com os cidadãos. 

O 1º ANO


Em 2011 entrou em funções um novo governo. Esse governo, fosse ele qual fosse, já tinha o seu programa condicionado. Era sua obrigação, em nome do compromisso assumido pelo estado português, aplicar, respeitar e desenvolver as medidas da Troika. Não havia volta a dar.

Dessa forma, o primeiro ano deste governo não foi de governação, mas sim de gestão e aplicação das medidas acordadas com a Troika. Era necessário uma reabilitação financeira do estado. Era necessário não falhar para poder haver novas transferências financeiras para os cofres do estado. As chamadas medidas de austeridade eram impreteríveis e compreensíveis.


O PRESENTE

O problema do estado português está longe de estar resolvido. Ainda mais longe, está o estado dos portugueses e do próprio país. É aqui que se esperava a acção governativa. Sabe-se que não se pode abrandar nos sacrifícios de todos, sob pena de voltarmos atrás. É necessário ajustar o país à sua realidade, à sua capacidade produtiva, à sua dimensão, ao seu lugar na Europa. Não podemos voltar ao passado e gastar como nórdicos e ganhar e produzir como os países em vias de desenvolvimento.

E até aqui, com mais ou menos protestos, havia um consenso generalizado sobre esta necessidade. Havia uma aceitação política dos factos.

Mas com os anúncios recentes de algumas medidas para o orçamento de estado de 2013 parece que tudo está a ruir.
Mesmo com o desvio orçamental e o não cumprimento na íntegra das metas (por ex.º do défice) estabelecidas para 2012, o governo teria de (agora sim) de governar e ter sensibilidade e habilidade política para diversificar as medidas a aplicar. E não foi isso que fez. Optou por uma espécie de suicídio político e num divórcio litigioso com os portugueses.


A opção em reequilibrar as contas do estado apenas pela via da receita é um erro. É verdade que já houve muitos cortes na despesa mas que, maioritariamente, apenas incidiram sobre os rendimentos de trabalho dos funcionários públicos. Agora, era necessário um sinal de maturidade política e sentido de estado. Um sinal de mudança na forma de governar Portugal. O governo tinha que equilibrar os sacrifícios entre as receitas e as despesas. Tinha de ter tido a coragem de reformar alguns sectores do estado e cortar a enormíssima e (em muitos casos) supérflua despesa do estado.

Em dois anos houve tempo para iniciar e aplicar algumas (reconheço que todas não é possível) reformas fundamentais, como sejam: a reforma administrativa do território e consequente redução dos municípios; a renegociação dos acordos (alguns ruinosos) estabelecidos nas parcerias público-privadas (PPP); o reajustamento de salários e regalias dos gestores públicos e uma reforma profunda nas empresas públicas; uma limpeza às reformas fictícias (os que já estão mortos e recebem, os que recebem em duplicado e em triplicado, etc); uma maior eficácia fiscal, nomeadamente, no combate à fuga fiscal, seja do trabalhador por conta de outrem, seja da grande entidade bancária; no combate à subsídio-dependência existente em todos os sectores da nossa sociedade, seja através do RSI ou das Fundações, por muito respeitadas que sejam; nos privilégios excessivos que a classe política usufrui; nas rendas do sector energético; etc, etc, etc.
Sem esse equilíbrio e sinal de boa fé por parte do governo, as pessoas não compreendem e não aceitam o que lhes é imposto. 


O FUTURO


A contestação social aumentou de forma exponencial e alargou-se a todos os sectores da sociedade. Há um reconhecimento geral (e não generalizado) de que não podemos continuar apenas por uma via. É necessário mudar o tráfego da austeridade para outras vias.

Alguns (os mais extremistas) defendem a queda do governo. Nesta altura seria um suicídio colectivo. Não é esse o caminho.

Mas o governo tem de ser capaz de assumir o erro. Tem de ser humilde e reformular o orçamento de estado para 2013. Tem de ser corajoso e retirar algumas medidas que visam a receita, implementando outras que diminuam a despesa. Tem de ser hábil e não colocar em causa decisões do Tribunal Constitucional ou mascará-las com questões de semântica. Tem de ser politicamente inteligente e voltar atrás um passo, para poder dar dois para a frente. Tem de respeitar, compreender e saber interpretar todas as críticas que têm sido feitas a estas medidas, por todos os quadrantes da sociedade. Tem de reajustar as medidas à realidade (agora sufocante) do país. Quando as opiniões, da esquerda à direita política, do trabalhador ao grande empresário, do sindicato à confederação patronal, do reformado ao desempregado, do gestor público ao banqueiro, começam a coincidir em muitos pontos, é porque algo está errado.
Hoje o desafio do governo é reconhecer o erro e equilibrar as medidas a implementar a Portugal e aos portugueses, porque elas são necessárias para o futuro deste país. Não é voltar atrás; é repensar a estratégia.
Tenho esperança que a democracia funcione e, se necessário e em última instância, que os deputados do arco maioritário chumbem o orçamento de estado. Não deve o parlamento ou o governo esperar pelos vetos presidenciais ou declarações de inconstitucionalidade.
Tenho esperança que o governo seja sóbrio e lúcido. Em nome de Portugal, em prol dos portugueses.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

UMA VEZ SAPATEIRO...

Uma vez sapateiro, sapateiro toda a vida!
Esta é a generalidade do pensamento português. Vem isto a propósito da nomeação de Alberto da Ponte, antigo presidente da Sociedade Central de Cervejas, para presidente do conselho de administração da RTP.

Não conheço o senhor em causa, nem pessoal, nem profissionalmente. Reconheço, que ainda não me dei ao trabalho de pesquisar na internet quais os seus feitos profissionais ou qual o seu curriculum vitae donde, não posso avaliar se foi uma boa ou má escolha.

Verifico é que, entre comentadores, cronistas, políticos, jornalistas ou cidadãos anónimos, nos jornais, redes sociais e comunicados oficiais de partidos e afins, a maior crítica que surge ao tal de Alberto da Ponte e a esta nomeação, é de que a industria cervejeira nada tem a ver com a televisão.

Seguindo esta linha de pensamento, alguém que terminou os seus estudos, por exemplo, em direito, e fruto da necessidade trabalhou como operador de call center ou como agente imobiliário, jamais poderá ser considerado um bom advogado.
Alguém que tenha estado 10 ou 15 anos no setor bancário e que acabou dispensado, não estará apto para exercer outra atividade em qualquer outra área, como por exemplo, gerir uma empresa de informática.
Um arquiteto que opta por deixar a sua atividade numa empresa de construção e resolve dedicar-se à cozinha, porque até tem um dom especial, não o poderá fazer, porque projetar edifícios nada tem a ver com comida.
Reina a filosofia de um emprego para a vida, tão própria de outros tempos e regimes.

Não sei se o senhor virá a ser um bom administrador da RTP.
Sei, que num estado onde a liberdade de escolha, balizada pela essência do estado de direito, quem gere ou quem é gerido, seja por contratação ou nomeação, ainda goza da faculdade de poder mudar de carreira, atividade profissional, área profissional, tacho ou como queiram chamar-lhe.

Condenar à partida pelo passado (não pelo que fez, mas pelo que foi) é defender que uma vez sapateiro, sapateiro toda a vida. E não me parece que essa seja a sociedade em que eu queira viver.

Quanto aos considerandos políticos desta nomeação, é outra história. Mas isso não me dá azo para condená-lo a nado-morto nas suas novas funções ou decapitá-lo da sua liberdade de escolha. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O MITO DO MULTIBANCO

Em tempos de crise todos ambicionam uma redução de custos, quer as empresas, quer a família Meireles de Rio de Mouro. O grupo Jerónimo Martins não foge à regra.

Argumentando uma redução de cinco milhões de euros anuais (5.000.000,00€ / ano), o grupo económico anunciou que a partir de Setembro, os pagamentos por multibanco nas lojas Pingo Doce só serão aceites a partir dos 20 euros. 
Até aqui nada de estranho e até existem centenas de lojas, serviços e afins em Portugal que apenas aceitam pagamentos de multibanco a partir dos 5 euros, o que deu origem ao «mito urbano» que não era possível  pagar despesas inferiores a 5 euros com o dito cartão de débito.

Mas, e talvez por se tratar do grupo económico em questão, a polémica sobre um «não assunto» voltou às páginas de jornais e até a DECO veio dizer que "em termos de segurança e de comodidade não são boas medidas para os consumidores."
Também as redes sociais foram sendo invadidas com anúncios de boicotes às lojas Pingo Doce, curiosamente e de uma maneira geral, pelos mesmos que protestam contra a banca e os seu lucros, contra qualquer tipo de taxa ou imposto, quer seja razoável ou não e, até mesmo daqueles que já lançaram apelos para boicotes ao uso de todo e qualquer serviço bancário, como forma de protesto.

Vistas as coisas, a DECO que se preocupou com a relação consumidor - Pingo Doce, não parece ter opinião sobre a relação consumidor Jerónimo Martins - bancos no que diz respeito aos custos inerentes à utilização de um serviço.

A maioria das opiniões publicadas na imprensa parece não apreciar uma gestão que consegue uma redução de custos na ordem dos cinco milhões de euros anuais, sem recorrer aos habituais cortes nos salários ou privilégios dos funcionários (também conhecidos como trabalhadores, numa linguagem mais popular).

Aqueles que teimam em condenar as instituições bancárias como o demo criador de todos os males das suas vidas não parecem agora ser capazes de descortinar uma redução nos lucros da banca e tirando daí um  prazer mesquinho de vingança.

Parece-me que o mal tem a ver com a mentalidade e atitude lusa que ainda não assimilou que é necessário fazer sacrifícios. E se todos os sacrifícios fossem apenas no campo da comodidade e funcionalidade, como é o pagamento por cartão de débito quando compramos cebolas e alhos no Pingo Doce, estaríamos nós muito melhor. Infelizmente, os sacrifícios atuais não se resumem à comodidade e funcionalidade das nossas vidas, mas isso, certamente, não é culpa do grupo Jerónimo Martins ou das lojas Pingo Doce.

O problema (para alguns) é que a maioria não abdica do segundo telemóvel, da assinatura da revista, dos cento e muitos canais mesmo que apenas vejam quatro ou cinco, do último modelo de iPad ou smartphone, do novo LCD com tecnologia 3D, das despesas mensais pela utilização de tráfego de Internet no telemóvel para publicar fotos ou comentar o repasto nas redes sociais, em suma, de alguns privilégios considerados supérfluos, mas que para alguns são mais importantes que qualquer despesa com saúde ou educação.

Seria bom que o governo também descobrisse algumas medidas que reduzissem vários cinco milhões de euros anuais, sem qualquer tipo de prejuízo financeiro para os contribuintes. E os bancos ficarão mais pobres com esta medida? Não, passam é a ganhar menos.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

A LICENCIATURA


«Nem tudo o que é lícito é honesto

Este princípio do antigo direito romano poderia resumir todo o caso da polémica licenciatura de Miguel Relvas. 
A frase transmite a necessidade de reconhecer a diferença entre o direito e a moral. 
O direito impõe as regras através de códigos e leis e a sujeição a essas regras impostas pelo poder público. 
A moral é determinada pela consciência da sociedade que nos rodeia e a sua aplicação é autónoma para cada individuo; é imposta pela consciência de cada um.

E aqui começa a controvérsia em redor da licenciatura do ministro Miguel Relvas.

Em primeiro lugar, o campo legal. 

Pelo que pude constatar nos meios de comunicação social, o chamado acordo de Bolonha permite que a experiência profissional, académica ou civil de uma pessoa possa conferir determinada equivalência a disciplinas (créditos ou unidades de crédito) de uma determinada licenciatura, mestrado ou doutoramento, desde que devidamente avaliada e comprovada a sua relevância para esse grau de equiparação.  Se analisarmos apenas esta vertente, Miguel Relvas utilizou uma estratégia, que leigamente vou designar como: “Do não, não passa”. Ou seja, arriscou.

O problema foi a entidade e os indivíduos que analisaram esse seu pedido. Pergunto-me como é possível, com uma experiência quase exclusiva em funções políticas partidárias (nem sequer foram de governação), com umas fugazes passagens pelo ensino superior e ainda mais efémera passagem pela vida empresarial,  sem qualquer trabalho de investigação ou de nível académico reconhecido pela sociedade, reconhecer mérito e relevância para uma equivalência de quase 90 porcento de uma licenciatura ? Será que todos os profissionais deste país teriam o mesmo critério de avaliação? 

A permissividade reinou nesta equivalência. Não houve moral, mesmo agindo dentro do direito. Para os que assim atuaram deve pedir-se agora a avaliação dos seus actos e julgar em conformidade: moral e judicialmente.
Creio que o espírito inerente à abertura que o tratado de Bolonha permitiu para este tipo de equivalências, não tivesse sido propriamente aquele que foi aplicado neste caso.

Em segundo lugar, o campo moral e ético.

Face às primeiras notícias sobre o caso e, não tendo havido nenhum desmentido, Miguel Relvas, Fernando Santos Neves e os outros implicados deveriam ter rapidamente reagido de forma célere e transparente. Ética e moralmente é o que se pede a um ministro de um governo de uma nação. É o que se pede a quem tem o poder de conferir e validar um grau de licenciatura num sistema de ensino de um país democrático.
As constantes fugas para a frente, os não comentários, as respostas evasivas apenas adensaram e confirmaram os contornos dúbios de todo o processo da licenciatura do ministro em causa. O currículo académico de qualquer aluno (do ensino privado ou público) deste país deveria ser de rápida consulta e de total transparência. Não só por este caso (ou o do ex-primeiro-ministro) mas por uma questão de credibilização e transparência de todo o sistema de ensino. Ou será que existem muitos esqueletos nos armários das faculdades do tempo do pós 25 de Abril? Esqueletos que hoje têm poder decisório em diversas áreas da nossa sociedade?
Moral e eticamente, Miguel Relvas deveria ter assumido todo o protagonismo do caso e não se escudar na legalidade processual do mesmo. Ele é um ministro, não é o Sr. Relvas que trabalha na companhia de seguros XPTO.


Em terceiro lugar, a questão política.

Que este governo seria o mais contestado dos últimos 30 anos não era novidade para quase ninguém. E, já que é licenciado em Ciência Política, Miguel Relvas deveria ter consciência desse facto. Qualquer politólogo que frequentou as aulas de todas as cadeiras do curso, saberia isso.
O elenco governativo apresentado ao país em Junho de 2011 até parecia à prova de escândalos; independentes, poucos ex-governantes, caras novas.

Mas Miguel Relvas teve o condão, fruto, quem sabe, da sua vasta e longa experiência politica, conseguir, em menos de um ano, ser falado pelos piores motivos: ligações duvidosas ao caso das secretas e da Ongoing e a Jorge Silva Carvalho e as alegadas pressões a jornalista(s) do Público, caso de término estranho, quer da parte da ERC, quer do próprio jornal.
E como isso não bastava, foi a vez da licenciatura. Com o ainda fresco na memória, caso Sócrates - licenciatura ao domingo -, Miguel Relvas, o político e o politólogo, deveria ter percebido o quão está a ser nocivo para um governo que em nada tem a vida facilitada. Todas as brechas abertas na credibilidade e na moral deste governo, terão sempre como consequência as mesmas vítimas de sempre: a população, os portugueses. É o efeito borboleta.

Face a anteriores declarações de Miguel Relvas sobre o caso Sócrates, face às outras polémicas que envolveram o ministro Miguel Relvas, face à contestação generalizada da sociedade portuguesa ao governo e às suas políticas (com as quais até concordo, na sua maioria), Miguel Relvas, o ministro, teria que ter a moral e a inteligência política para ele próprio apaziguar as chamas, mesmo que isso implicasse o seu pedido de demissão; 
Para bem da moral dos políticos face à sociedade, para bem da estabilidade governativa face aos portugueses. Sun Tzu, em «A Arte da Guerra», leitura “obrigatória” para qualquer politólogo, disse: “A virtude é aquilo que leva o povo a estar em harmonia com o seu governante”. E no momento que o país atravessa, harmonia precisa-se: A bem de Portugal.

Em quarto lugar, a questão socio e psicológica.

É sabido que Portugal prima pela vaidade. É um facto inerente aos povos latinos. No caso de Miguel Relvas, não o conhecendo pessoalmente e correndo o risco de ser injusto, faço a minha avaliação pela postura, discurso e atitude que acompanho há muito, bem antes de ser ministro. Miguel Relvas exala vaidade e ambição desmedida por todos os poros que respira.

Acredito que tenha sido um incómodo para o deputado Miguel Relvas ou para o dirigente do PSD Miguel Relvas não ter título académico pelo qual pudesse ser tratado quando em contacto com outras pessoas.  Acredito que até pudesse ter causado alguns embaraços a terceiros esta falta de título académico, quando queriam dirigir-se a Miguel Relvas. O Dr., Engº ou o Arqº tornaram-se muletas no trato social, profissional e institucional em Portugal. Até as instituições bancárias insistem em colocar nos cartões bancários o grau académico, como forma pura de bajulação comercial, o que poucos recusam, na esperança que isso confira aos portadores dos cartões uma maior autoridade moral, vá-se lá saber porquê. É o país dos doutores e engenheiros que, curiosamente, não consegue albergar nem criar condições para que quase todos tenham profissões condizentes com o tal prefixo no cartão de crédito.

Em suma, Miguel Relvas padeceu do mesmo desconforto socio e psicológico que a maioria dos portugueses; a falta de confiança sem a muleta do prefixo académico que também preenche o ego vaidoso do português.



Uma licenciatura ou outro grau de ensino superior é algo que, em consciência, se pretende atingir visando uma aquisição ou aprofundamento de novos conhecimentos. A valorização pessoal pelo conhecimento. Mas esse objectivo só se cumpre com a frequência integral das aulas, com a leitura dos manuais, ouvindo aqueles que foram designados para nos ensinar, trocando experiências com outros colegas, escrevendo ensaios ou súmulas sobre livros de referência, estudando e aprendendo a ter uma capacidade crítica e de análise sobre as matérias que nos são leccionadas. 
Não consigo enquadrar Miguel Relvas neste perfil, pelo que me é difícil entender, em racionalidade lógica, todo o processo que envolve a sua licenciatura.

Em tempos de austeridade financeira, que reconheço ser necessária (pelo menos, em parte), Portugal, os seus governantes, os seus magistrados, os seus políticos, os seus professores, os seus dirigentes e gestores públicos, aqueles que detém qualquer tipo de poder decisório na vida de todos nós, a população em geral, deveria adoptar medidas bem severas de austeridade moral e ética. Só dessa forma poderia haver harmonia entre o povo o os que o governam.





quinta-feira, 5 de julho de 2012

A NATALIDADE, A EDUCAÇÃO

Vários órgãos de comunicação social noticiaram hoje que Portugal está com a mais baixa taxa de natalidade desde o início do século XX.
Quase sem excepção, todos optaram pela abordagem das causas que levaram a esta realidade.

Eu aconselharia os responsáveis deste país a olharem para esta notícia de forma diferente; a pensarem nas consequências que irão existir dentro de cinco, seis anos, nomeadamente, no sector do ensino.

Com isto quero dizer o seguinte: basta um simples raciocínio matemático para se perceber que dentro dos tais cinco, seis anos e, com continuação nos consequentes 10 a 12 anos, o número de alunos irá reduzir substancialmente. Logo, se existirem menos alunos, terão de existir menos professores e, quiçá, menos escolas.

Esta minha forma de abordar a questão da natalidade (que não me parece estapafúrdia de todo) neste campo específico da educação, poderá ser um alerta para se ponderar muito bem toda a política de eventuais contratações de docentes, de investimentos em novos equipamentos escolares (que não visem a substituição de existentes) e até de opção individual para quem pensa seguir a carreira docente.

Se houver uma nova abordagem às realidades, que contemplem planeamento e objectividade, poder-se-á evitar no futuro as habituais cenas de despedimentos forçados, encerramentos bruscos de escolas e os normais problemas políticos, económicos e sociais que estas decisões acarretam. 

Seria bom que em Portugal pudéssemos ver o poder decisório e executivo, projectar o futuro, baseado na realidade de hoje, de forma objectiva e ponderada de forma a que agisse por antecipação em vez das usuais e grosseiras reacções por necessidade e incúria. 

Eu vou sonhando...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A BEM DA «RES PUBLICA»


Ser ministro da res publica, (coisa pública) não implica a perda da privacidade individual de cada um.

Mas ser ministro da res publica implica seriedade, coerência, responsabilidade e responsabilização, quer pelos atos de governação, quer por eventuais atos individuais que possam colocar a credibilidade do cargo que se desempenha.

No caso da licenciatura de Miguel Relvas não se pretende uma crucificação pública, mas sim o apuramento da verdade e o assumir dos custos políticos que daí advenham.

É também necessária uma mudança de mentalidade por terras lusas e perceber que qualquer governante, parlamentar ou titular de cargo público decisório deve tornar público ou facultar, de forma transparente e sem pejo, todas as informações que sejam de interesse público sobre a sua vida

Mais uma vez, no caso Miguel Relvas, uma licenciatura "tirada" num ano, é um facto muito pouco ou nada vulgar (ou deveria ser). Como tal, e tratando-se do título académico e currículo de um ministro, deve ser visto como de interesse público.

Para os mais esquecidos, observe-se o exemplo do ex-ministro Nuno Morais Sarmento, que de forma transparente e sem pejo revelou o seu passado de dependência e consumo de drogas duras. E isso não se afigurava de tanto interesse público como a formação académica agora posta em causa.

Já começa a ser banal os nossos governantes adulterarem ou esconderem "esqueletos no armário" sobre as suas formações académicas.

Noutras paragens (civilizadas) dá direito à morte política sem passar por lugares executivos em empresas públicas ou com ligações ao estado. Por cá, continua a reinar o regabofe da impunidade política e, em alguns casos, judicial.

Em Portugal urge um Baltasar Garzón, um Paolo Borsellino ou um Giovanni Falcone... a bem da res publica.

domingo, 10 de junho de 2012

PARABÉNS

Gosto de ti e tenho orgulho em ti!

Mas tens de reconhecer que tens tido uma vida difícil e tens sido maltratado.
Tiveste de lutar cerca de 150 anos para teres o tamanho que tens.
Depois, foste abandonado quase durante 100 anos, para te fazerem crescer e dar-te sustento. Ficaste conhecido como um dos donos do mundo. De pouco te valeu...
Raptaram-te e tomaram conta de ti por 60 anos. Quando tentavas restabelecer-te a terra tremeu e foi necessário reconstruir a tua confiança. Ainda débil, manetas e afins resolveram invadir o teu espaço...foste resistindo, mas ficaram as marcas.

Por cá, punhas irmãos à chapada, porque o teu dono fugiu para terras longínquas. Restabelecida a ordem e quando mudaste a forma como eras governado, à inglesa, Buiça e os seus amigos resolveram acabar com tudo.
Adoptaste a coisa pública, inspirado na causa francesa.
Passaste a ter mais gente a mandar em ti mas nunca se entenderam.
Em 15 anos tiveste 8 donos e 45 gestores. Passaste pelos males da guerra de todos.

Depois foste dominado pelos teus pares e aprisionado quase 50 anos. Chamavam-te de novo. Andaste em guerra com aqueles que tinhas conquistado e adoptado no passado. Mudaste-lhes o nome para os de além mar, para assim poderes seres reconhecido pelos do norte.
Mas o teu novo destino estava traçado. Vestidos de tropa, tomaram conta de ti, mas não sabiam o que te fazer. De repente, todos se achavam teu dono. Foram precisos 2 anos e muitos gritos até resolverem que, aqueles que mais gostavam de ti passavam a escolher os teus gestores.
A coisa não foi fácil nos primeiros anos e resolveste juntar-te à velha família, como forma de poderes descansar um pouco. Ela cuidou de ti, orientou-te e deu-te dinheiro.
 
E depois de muita gente sem saber como cuidar de ti, aqui estás tu, 869 anos depois, a pedir outra vez ajuda e a tentares sobreviver. 
O teu dia de amanhã não sei como será, mas a avaliar pela tua vida não será fácil e, possivelmente, passará por mais amarguras e aventuras.
Resta-me pois, dar-te parabéns e recordar-te pelas boas memórias e pelos bons momentos que nos tens dado a todos.

VIVA PORTUGAL

Algures no teu âmago, 10 de Junho de 2012
Um teu admirador.

sábado, 5 de maio de 2012

AINDA O PINGO DOCE...


Ainda o PINGO DOCE:

#1
Se praticaram dumping o que dizer dos 75% em cartão do Continente, dos 50% do Ikea, das black fridays do El Corte Inglês, do pague 1 e leve 2 que prolifera nas montras nacionais e das centenas de descontos superiores a 50%, fora da época de saldos e de forma apenas ocasional e promocional, por este país fora?

#2
Se as grandes cadeias de distribuição (leia-se grandes grupos económicos) têm margens muito elevadas, queixam-se os produtores, o que pensar das margens praticadas nos mercados municipais, mercearias de bairro, mini-mercados em terras de praia e de outro turismo?

#3
Não conhecendo, tecnicamente, tudo o que rege a prática de dumping, houve algum produto à venda no Pingo Doce, no dia 1 de Maio, que o preço de venda estivesse afixado abaixo do preço de custo? Ou apenas se tratou de um desconto final sobre a totalidade das vendas?

#4
Serão as vendas em grupo, existentes em dezenas de sites da internet, que atingem descontos na ordem dos 70 a 90 %, práticas de dumping? Ou tal como o desconto do Pingo Doce, apenas formas promocionais para aumentar as vendas e fazer escoar os produtos / serviços? 

#5
Não terá havido um aproveitamento político/social em todo este "caso"? Não terão as pessoas, de uma maneira geral, ficado escandalizadas com a euforia, o histerismo, a falta de civismo, o desespero e quase a loucura das pessoas, que foram vistas nas imagens televisivas (e ao vivo, para quem lá esteve) e, virado a sua aversão e repúdio, para o grupo económico em causa?

#6
Será que a maioria das pessoas que, durante as semanas antecedentes ao 1º de maio, nos cafés, locais de trabalho, transportes públicos, na rua, nos vox pop televisivos e afins, afirmaram a sua discordância e compaixão para com os funcionários das grandes cadeias de distribuição, que teriam de trabalhar no feriado -  Dia do Trabalhador - foram às compras ao Pingo Doce neste dia?

#7
Para quem já esteve em frente ou já viu uma multidão que se esgatanha, se atropela, se esbofeteia, que utilizam crianças, que ofende, que agride, que tem colapsos, que grita, etc... por apenas uma caneta ou um avental de plástico de uma qualquer força partidária, numa fila para receber um gelado de borla, numa fila para comprar um bilhete de futebol, numa praia para conseguir o maravilhoso frisbee ou por um simples jornal gratuito, aquilo que foi visto na passada terça-feira não pode espantar, nem ser atribuído à crise; é apenas mais uma demonstração da bestialidade natural e primitiva do ser humano. E todos a temos; uns mais, outros menos; uns de forma regular, outros de forma esporádica.

#8
Para finalizar e, ressalvando o facto de que não sou funcionário, accionista, advogado, cliente assíduo ou amigo do grupo económico que detém a cadeia de distribuição do Pingo Doce, parece-me que o Grupo Jerónimo Martins teve dois grandes méritos nos últimos tempos: 
- de desmistificar a escolha da Holanda como sede fiscal de uma empresa portuguesa. Após a comunicação que o tinha feito, a imprensa foi mostrando ao país, que afinal existem dezenas de grandes empresas que já tinham as suas sedes fiscais no país das tulipas e que mal nenhum advinha ao mundo por isso;
- que o mundo das promoções, descontos, margens de lucro, relação entre produtores e distribuidores não é tão linear como a maioria pensava. Este "caso" Pingo Doce não é um exclusivo desta cadeia, mas transversal a todo o sector e à maioria das atividades económicas... em Portugal e no mundo inteiro.

Este é um "caso" para pensar de janeiro a janeiro e não apenas no dia 1 de maio.